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Escrito por Nuno Xavier   
Quinta, 08 Janeiro 2009 10:49
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Nota biográfica
O METAL CORRE-LHE NAS VEIAS por Filipa Franco
Os 5 Q's de Freitas
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António Freitas é o mais conhecido divulgador português de heavy metal, hard rock e rock fm, graças ao trabalho que há quase duas décadas tem desenvolvido na rádio, na televisão e na imprensa musical.

Das suas actividades actuais, destacam-se o programa Alta Tensão, na Antena 3, e o   magazine semanal Hypertensão, na SIC Radical, dois projectos que, por mérito próprio, se tornaram referências para os apreciadores do rock mais pesado.

A carreira de António Freitas iniciou-se em 1988 na Rádio Comercial, como assistente de realização, o que lhe proporcionou a oportunidade de trabalhar nos lendários programas Rock Em Stock, de Luís Filipe Barros, e Lança-Chamas, de António Sérgio.

A estreia como animador deu-se em 1991, quando começou a fazer na Rádio Energia, de  segunda a sexta-feira, o programa Alta Tensão. Dois anos depois, ingressou na Antena 3 para apresentar um programa diário de hard & heavy, o Hypertensão, que continua a realizar, agora com o nome de Alta Tensão.

O sucesso da sua actividade radiofónica levou a SIC Radical a convidá-lo, em 2002, para uma  colaboração com o programa Curto Circuito. No ano seguinte, estreava o magazine semanal Hypertensão, que ainda hoje se mantém na grelha da SIC Radical.

Além da rádio e da televisão, António Freitas deixou também a sua marca na imprensa especializada. Depois de no princípio da década de 90 ter colaborado no jornal Blitz – onde desenvolveu um trabalho então inédito em Portugal, ao efectuar entrevistas regulares a artistas estrangeiros –, foi o fundador de duas revistas: em1999 lançou a Riff, e em 2000 fundou e foi director da Loud!, uma revista dedicada ao heavy metal que continua a publicar-se mensalmente.

Do seu trabalho como divulgador faz ainda parte a organização do festival itinerante Alta Tensão, que em 2006/2007 levou a diversos pontos do país bandas consagradas como Moonspell, Ramp e Tarantula, a par de novos talentos da música nacional. Também em 2007, entre Maio e Dezembro, foi DJ residente às sexta-feiras na famosa discoteca 2001, no Autódromo do Estoril.

O mais recente projecto de António Freitas, concretizado em 2008, consistiu na edição da compilação Rock Power – um duplo CD com uma selecção de canções rock/hard fm –, que entrou directamente para o primeiro lugar da tabela de vendas de compilações e vendeu quase 10 mil unidades em menos de dois meses.

O METAL CORRE-LHE NAS VEIAS por Filipa Franco

"Até mesmo a dormir eu oiço musica"

Desde que nasceu, o rock faz parte da sua vida. Cresceu e vive rodeado de Metal. A música é o seu modo de vida, a sua companhia durante as 24 horas do dia. Vive com ela, para ela e por causa dela. António Freitas mergulhou no mar do rock e nunca mais saiu de lá.
Fez da música (principalmente do metal) a sua vida. Como é que o mundo do rock entra na sua vida?
Se formos ao princípio mesmo, o meu irmão mais velho ouvia Led Zeppelin, Creedence Clearwater Revival e coisas desse género. Quando eu era bebé ele chegava-me a adormecer a ouvir esse tipo de músicas. Se calhar isso ficou no subconsciente.  Mais tarde, por volta dos nove, dez anos, comecei progressivamente a descobrir bandas de Heavy Metal e de Hard Rock. Na altura eram os AC/DC, os Van Halen. Foi aí que eu me comecei a interessar mais ainda pelo mundo da música. Não sabia o que é que queria fazer na vida, obviamente. Estamos a falar em 1979, 80. No nosso país não existia rigorosamente informação nenhuma acerca de certo tipo de bandas. Havia alguns suplementos de jornais. Lembro-me do Portugal Hoje, tinha um suplemento que era o 'Som 80', o Correio da Manhã também tinha um suplemento que era o 'Top+'. Era onde, de alguma forma, os jornais falavam da música que eu gostava e da música que se fazia naquele tempo. A maior parte de informação do historial de grupos como AC/DC ou Van Halen era extremamente escasso. Não existia cá. As revistas estrangeiras que chegavam cá e que falavam desse tipo de bandas, sem ser a Rolling Stone, eram revistas alemãs. A 'Popfoto', que depois se juntou a outra que era a 'Rocky', de onde surgiu a 'Pop Rocky'. Lembro-me de comprar essas revistas e de folheá-las avidamente, só para tentar descobrir a discografia de uma banda. Na escola não era grande aluno, era até mauzinho. Não me interessava pelas disciplinas, vivia absorto no mundo da música. Entretanto, vivia no mesmo prédio onde residia o director da Rádio Comercial, o senhor João David Nunes e a minha mãe passava a vida a dizer "o meu filho é um completo passado do juízo, não pensa em mais nada a não ser em música, não sei o que vai ser dele no futuro", esse tipo de afirmações. O João David Nunes disse à minha mãe que um dia que se proporcionasse, eu iria à Rádio Comercial fazer um teste para ver ser poderia ser assistente de realização, ou qualquer coisa do género. E isso aconteceu. Foi assim que fiz da música a minha profissão.

Como surge a ideia do Alta Tensão, na Antena 3, e do Hypertensão, na SIC Radical?
O Alta Tensão surgiu na Rádio Energia. Eu na altura trabalhava na Rádio Comercial como assistente do Rock em Stock e do Lança Chamas. Estes programas foram emblemáticos na divulgação do Hard Rock e do Heavy Metal. Depois tive oportunidade de ir trabalhar para a Rádio Energia, que tinha um projecto jovem e extremamente dinâmico. Para ir trabalhar para lá, impus como condição ter o meu programa diário de Heavy Metal. Foi aí que eu comecei a fazer o Alta Tensão, em 1992. Dois anos mais tarde, acabei por vir para a Antena 3, onde permaneço com o programa. O Hypertensão começou na SIC Radical há cinco anos. A ideia existia, já havia cartas de ouvintes do programa de rádio que perguntavam porque é que não fazia um programa deste tipo na televisão. Eu respondia sempre que era complicado porque em televisão as coisas funcionam de outra maneira. Quem domina o meio não acredita nesta sonoridade. Depois surgiu um canal como a SIC Radical, que deitou abaixo vários dogmas desse género. Foi aí que o Hypertensão acabou por existir. Houve um dia em que fui fazer uma entrevista aos Slipknot no Curto Circuito, que era já um programa que tinha um bom following. Eles gostaram da minha atitude, e como eu dominava o inglês e conseguia traduzir e logo a partir daí se estabeleceu a ideia de podermos fazer qualquer coisa no futuro. Comecei inicialmente por fazer uma pequena colaboração no Curto Circuito, durante um ano. Tinha uma rubrica às quartas-feiras onde apresentava uns vídeos e umas bandas de Heavy Metal. Daí evoluiu-se para fazer o magazine de 30 minutos que é o Hypertensão actualmente.

Que importância acha que tem o Alta Tensão para as pessoas que o ouvem. Funciona como formador ou como fomentador dos gostos musicais?
Acho que acaba por ser as duas coisas. Acaba por ser uma escola, ao mesmo tempo que é uma forma de divulgação e incentivo de algumas bandas nacionais. Sem dúvida que teve e ainda tem essa importância desses dois factores. É um programa com mais de dez anos e tem já alguma fidelidade dos ouvintes.

No trabalho que faz, conta mais com o seu ouvido ou com o que está nas estantes das lojas de música?
É sempre o meu ouvido. Eu tecnicamente não preparo uma emissão. Escolho álbuns que estão a sair no momento, para divulgar. Normalmente são três dentro das sonoridades. Ou seja, dentro de uma sonoridade mais moderna se estivermos numa onda Metalcore. Vou sempre a um álbum de uma sonoridade tradicional, Power Metal, dentro da onda de Iron Maiden, Helloween e afins. Embora hoje em dia não esteja a fazer assim, tento sempre dividir o programa em vinte minutos para cada sonoridade. Dou primazia à sonoridade da altura, seja o Nu Metal ou o Metalcore, e desenvolvo um destaque para um grupo. Nos vinte minutos seguintes dou atenção a uma banda de sonoridade tradicional. Nos últimos vinte minutos são as sonoridades mais intensas, mais agressivas, abrasivas. O Death Metal, o Black Metal. E faço o destaque segundo aquilo que recebo das editoras ou alguma banda que eu ache interessante.

Noutras áreas há linguagens específicas. No mundo da música também existe uma forma de comunicação própria, uma língua musical universal?
O pessoal que gosta de música discute música como se discute futebol. Eu não percebo nada de futebol, só percebo mesmo de música e se começarem a falar comigo eu só vou falar de música. Falamos de detalhes técnicos, de detalhes obscuros. Com alguns amigos meus é disso que falo. Passamos noites em alegres cavaqueiras a falar de música. Há uma linguagem musical, é óbvio. É uma gíria musical.

"Esses dois senhores (António Sérgio e Luís Filipe Barros) viraram-me a vida do avesso"

O António é uma referência quando se fala de metal em Portugal. Quais são as suas referências?
Já me disseram isso várias vezes, embora não o queira admitir, mas é verdade, acabo por ser. As minhas referências em termos radiofónicos são duas. Essenciais. António Sérgio e Luís Filipe Barros. Tanto um como outro criaram programas lendários. O Luís Filipe Barros tinha o Rock em Stock que passava todos os dias na Comercial. Entre as cinco e as sete da tarde tínhamos duas horas de rock como deve ser, Hard Rock. O António Sérgio fazia um programa aos sábados, também na Comercial, que era o Lança Chamas e que tinha três horas. No Lança Chamas focavam-se, geralmente, grupos que não passavam durante a semana no Rock em Stock. Podiam ouvir-se bandas com uma sonoridade mais definida e que não fossem tão fáceis de assimilar na programação normal. Podia haver programas feitos, por exemplo, sobre as novas bandas de Hard Rock japonesas. Esses dois senhores viraram-me a vida do avesso. Foram as duas referências, na rádio em Portugal. Na televisão não acontecia nada na altura, mas talvez o Júlio Isidro, com o Passeio dos Alegres. De vez em quando apresentava umas coisas que me deixavam todo contente. Os Scorpions ou os KISS.

Recentemente saiu um CD compilado pelo António. Como é que surge a ideia de fazer o "Rock Power"?
Eu tive uma residência como DJ no 2001, que é uma discoteca lendária, que há mais de 30 anos que toca o mesmo tipo de música, o Hard Rock, AOR/Rock FM.
E já tinha tido uma experiencia também, no Alta Tensão. Fiz uma compilação com música alternativa, onde me dedicava a bandas da cena independente portuguesa de Heavy Metal. As vendas não correram muito bem, porque a maior parte dos 'metaleiros' são coleccionadores ávidos e atentos. Quando gostam de uma banda compram tudo e não dão grande importância a essas compilações. Uma sonoridade onde isso não acontece é precisamente o AOR/Rock FM. Há pessoas que apreciam um tema mas não gostam do álbum todo ou nem sequer conhecem os álbuns todos. Nessa experiência que tive no 2001 propus a duas editoras fazer-se uma compilação, mesmo através da marca '2001'. Uma das editoras aceitou mas disse que queria que o projecto se desenvolvesse em torno da minha pessoa, e foi assim que surgiu a "Rock Power".

Qual foi o critério de escolha das músicas do CD?
Essencialmente são temas que eu acho que têm força e que são interessantes dentro da sonoridade de Rock FM. Há uns que são mais óbvios e que já apareceram noutras compilações mas que são necessários estar lá para atrair as pessoas. Pelo facto de estar lá uma banda como Foreigner, Asia ou ZZ Top, esses nomes mais sonantes, atrai a atenção das pessoas. Às tantas vão acabar por conhecer outras bandas que não são tão familiares, como os Honeymoon Suite ou os Boulevard, e vão achar piada. Eu vivo com essas bandas vinte e quatro horas por dia. Até mesmo a dormir eu oiço musica. São grupos que tiveram o seu auge em finais de 80 e que não foram muito mais longe, mas gravaram álbuns que têm malhas absolutamente marcantes. O intuito foi esse. Recuperar e chamar a atenção para esses temas e essas bandas que tiveram outra relevância nesses tempos.

Este ano assistimos a vários regressos e a alguns lançamentos de peso (por exemplo AC/DC, Metallica, Extreme e, mais recentemente, Guns N' Roses). São bandas intemporais ou acredita que cada banda tem o seu tempo?
Há bandas que marcam uma época mas acho que a boa música é intemporal. E a prova está dada, por exemplo no "Rock Power", que teve sucesso. Na primeira semana foi número um de vendas e está a ter uma óptima reacção. Os exemplos dados são bandas que são eternas. Os Extreme não tanto, mas se formos para uns Scorpions, são uma banda eterna, os Led Zeppelin são obviamente uma banda eterna, os Metallica, Def Leppard, Whitesnake. Por muito foleiro que se ache o visual dos Whitesnake com aquelas cabeleiras cheias de laca, aquilo marcou uma altura e o visual daquela altura. Na verdade aquela música era feita por excelentes músicos. Grandes guitarristas, grandes baixistas. É incrível, por exemplo, estar numa discoteca cheia, pôr um desses temas e ver a maior parte das pessoas a reagir e a ficarem completamente em êxtase. Há temas que fazem parte quase do ADN dessas pessoas. Para mim, a boa música é intemporal. Pode-se associar a uma época. Mas continua a ser uma fonte de influência para novos seres humanos seguirem aquele caminho.

A maior parte das bandas de culto são fruto de uma época concreta, dos anos 70/80. Hoje em dia grande parte dos grupos que surgem desaparecem rapidamente. Será que neste momento ainda se formam bandas que podem vir a ser "de culto" no futuro?
É uma boa pergunta. E eu tenho-me questionado, quando desaparecerem os U2, os Pearl Jam, os Metallica, AC/DC, Scorpions, não vai haver outros com esse calibre. Numa sonoridade mais Mainstream, uns Coldplay poderão ter esse tipo de following, como os U2 têm hoje em dia. Preocupa-me realmente, o facto de não haver capacidade para se formarem grandes nomes e grandes bandas de culto, como houve anteriormente. O facto de a maior parte das bandas dar os primeiros passos na internet faz com que haja tanta oferta que, qualquer dia, vamos ter uma banda para cada dez pessoas e essas dez pessoas não vão conseguir sustentar esse grupo. Hoje em dia não creio que estejam a ser criadas bandas como houve noutros tempos, com a possibilidade de terem o estatuto de bandas de culto e estarem em grande daqui a uns vinte anos. Está cada vez mais complicado, esse tipo de panorama.
 
 
Os 5 Q's de Freitas:

Qual seria a entrevista de sonho?
Bon Scott, o falecido vocalista de AC/DC. E talvez o Ted Nugent, que ainda não tive oportunidade de entrevistar.

Qual foi o melhor concerto que viu?
O momento da primeira reunião do Ozzy Osbourne com os Black Sabbath, que tive oportunidade de ver em Birmingham. Marcou-me intensamente.

Qual foi o pior?
Apesar de gostar, não aguentei o concerto de Nick Cave And The Bad Seeds. Achei absolutamente boring. E Dire Straits, embora goste da música do Mark Knopfler. Apanhei uma seca descomunal no Estádio de Alvalade. Foi o primeiro espectáculo que abandonei antes do fim.

Qual é o concerto a recusaria assistir?
Opera.  

Qual é a música que o faria por o leitor em modo replay vezes sem conta?
Supernaut dos Black Sabbath

 
Filipa Franco
 
Actualizado em Terça, 22 Junho 2010 09:57